"Acorda, acorda!" Javier abriu dois olhos preguiçosos enquanto sentia o corpo sendo sacudido. A voz do colega parecia desesperada. Algo havia dado errado? "Eles mataram o capitão! Querem matar o resto de nós!" O quê? "Vamos, acorda! Temos que cair fora daqui!"
Em um só gesto e ele já estava sentado, terminando de calçar as botas. "Mas do que você está falando? Estava tudo bem!" "E eu lá entendo a cabeça desses selvagens? Só pega tudo que você puder e vamos embora! Eles querem nos matar!" E Pablo saiu, deixando as palavras no ar. Agora que estava bem desperto, Javier podia sentir a movimentação no ar, ver as luzes tremulando do lado de fora e ouvir gritos, cada vez mais freqüentes, de pelo menos dois tipos: as vozes assustadas de homens espanhóis e os berros inumanos dos selvagens. Não havia mesmo tempo a perder.
Pegou tudo que viu pela frente, fossem jóias, estátuas, moedas ou qualquer outra coisa que parecesse brilhar levemente sob a luz amarelada de uma tocha. Saiu pela porta e tentou andar o mais rápido que podia, tropeçando aqui e ali. Pela fresta de uma porta, viu o olhar assustado de uma criança nativa. Ela tinha olhos mais negros que a noite, olhos que pareciam sugar para dentro de algum pesadelo infantil... olhos de demônio, como Padre Miguel dizia.
Alguns gritos vieram por trás. Os selvagens logo estariam ali. Começou a correr, mas suas botas enfiavam muito fundo na lama e era difícil avançar. Descobriu que podia ir mais rápido se andasse como uma garça, mas aquilo o fez sentir-se ridículo. Um colar de ouro caiu na lama e Javier abaixou-se para pegá-lo.
"Javier? Venha logo, temos que chegar ao navio!"
Mais algumas moedas caíram. Se chegasse de mãos vazias, provavelmente Hernan lhe diria que seria melhor se tivesse morrido. Tentou novamente seguir em frente. A terra ficava mais firme e era mais fácil andar. A confiança voltou e Javier tentou andar mais rápido, quando ouviu novos gritos. Eram vozes selvagens e brutais, que, apesar de usarem outra língua, pareciam evocar torturas e sacrifícios humanos.
Apressou o passo e tropeçou. Levantou-se, abaixou-se de novo para pegar as coisas que caíram, tentou correr. O peso do ouro tornava a atividade difícil. As vozes atrás se aproximavam. Ao longe, podia ver um de seus companheiros ter a cabeça decepada por um índio forte e altivo.
Dizem que no sul essas feras chegavam até mesmo a comer carne humana. Mas esses eram diferentes. Eram honrados, não atacavam pelas costas e não matavam os inimigos em batalha. Só nos sacrifícios, só para os deuses. Hernan queria se aproveitar disso para derrotá-los. É mais fácil derrotar tolos como esses. O que ele estaria pensando agora que seus soldados caíram em uma emboscada desses bobos?
Escorregou, e dessa vez foram ao chão boa parte das coisas que levava consigo. Abaixou-se, tateou a terra, juntou todo o ouro que podia ver à luz da lua em um único monte. Forçou a vista tentando encontrar mais alguma coisa. Sob uma luz de tocha, viu uma moeda grande que caíra um pouco mais longe das outras. Sob uma luz de tocha. Sob uma luz de tocha, Javier levantou a cabeça. Olhos negros encontraram com os seus. Uma arma estranha, parecida com uma espada rústica, ergueu-se. Sob uma luz de tocha, Javier morreu.
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