05 março 2011

A sensação é de que fui arrancada à força de meu mundinho e largada nua no meio da estrada. A minha pele está gelada, cortada pelo vento; estou sozinha, sem a quem recorrer; desorientada, sem saber em que direção ir, o que fazer, e nem mesmo o que me aconteceu.
Caminho para a borda da estrada, meio encolhida de frio, me agarrando a um pedaço de tecido velho que deixaram comigo. Um último resto de calor e dignidade. Me encolho, ando abaixada, de cócoras quase, os joelhos dobrados, a coluna inclinada para a frente, o braço direito segurando firme a fonte de calor contra o corpo, protegendo meus seios, minha barriga, enquanto o outro braço está caído, pronto a servir de apoio se eu cair no chão, ou girar como contra-peso, se eu precisar agir.
Meus pés no mato alto, capim, não o toque gentil de grama. Uma pequena descida, do nível da estrada até o nível do campo, ainda antes da cerca. Mantenho a distância do arame farpado, mas não posso também ficar no meio da estrada, frágil diante de qualquer carro em disparada.
Não sei se devo esperar por ajuda no canto da estrada. Se alguém me visse nesse estado, fraca, suja, nua, o que garantiria que me ajudaria? O que impediria de me ferir, de me torturar, de usar de uma crueldade cínica e sádica em mim? A ocasião faz o ladrão, dizem.
Eu me encolho, agarro o mato com as mãos, busco algum refúgio no calor de meu próprio corpo. Não posso esperar, a morte é certa. O frio e, mais tarde, a fome e a sede, acabarão por me matar. Supondo, é claro, que serpentes ou outros animais não o façam antes. Minha única esperança é andar à beira da estrada e esperar que apareça alguma coisa. Algum abrigo, alguma roupa pendurada no varal de uma casinha vazia, alguém que pareça confiável, algum açude onde eu possa, enfim, me afogar.