Se eu dissesse que o esperei a tarde toda, será que me olhariam com piedade? A tarde toda, desde o almoço até pouco depois do sol se pôr. E então, tímida, eu fui pra casa. Todos os olhares que por acaso se encontravam com os meus pareciam reprovar minha conduta. Uma enorme vergonha dilacerava meu peito. Eu acreditei! Todos esses anos não me ensinaram nada? Todas as decepções e dificuldades não me ensinaram nada? Depois de tudo, eu cometi o mesmo erro, e agora poderia me arrastar humilhada de volta para casa, onde contaria como fui enganada, e eles se apiedariam de mim e me abraçariam e diriam que tudo ficaria bem. E tudo ficaria. Mas porque estava bem desde o início.
Assim, a vergonha superando a auto-piedade, eu disse:
- Eu fui na casa da Lorena, mãe. Passei a tarde lá, conversando.
E ela nem reparou na minha mentira.
Atravessei a sala, entrei no meu quarto, fechei a porta atrás de mim. Sentei na cama e pensei por um longo momento se deveria chorar ou não. Conferi, pela milésima vez, o meu celular. Nenhuma ligação perdida, nenhuma mensagem, nada. Meu pai se esqueceu de mim. De novo. Mais uma vez. Como sempre.
A noite se passou normal. O jantar estava péssimo, mas minha mãe nunca cozinhou bem e eu já estava começando a me acostumar. Nós conversamos sobre trivialidades, ela foi assistir jornal enquanto eu tomava meu banho, e então eu fui dormir e fiquei ouvindo o barulho do chuveiro enquanto ela tomava banho. Saber que ela estava ali perto, ouvir o barulho da água, dos passos, da tetrachave sendo fechada, da porta do quarto dela se fechando... Tudo aquilo dava uma sensação tão grande de segurança e conforto. Lembrava os primeiros meses depois da separação, quando eu e ela moramos na casa da vó e nós dividimos a cama. Aninhar-me nos braços de minha mãe... Quase tão bom quanto provavelmente fora aninhar-se em seu útero.
Logo minha mente já vagava por outros assuntos. Pensei na escola, pensei nas coisas que tinha pra fazer, e logo minha mente já vagava pelas questões difíceis do meu relacionamento com certo menino... Adormeci pensando nele, e naquele momento, as piores coisas que eu era capaz de imaginar era a possibilidade de levar um fora. Estava de volta ao mundo dos problemas pequenos e menores, para não dizer infantis, enquanto protegia a mim mesma do mundo real que me aguardava lá fora.
Fui pra escola como em qualquer outra segunda-feira e nem me lembrei do fim de semana. Ninguém me perguntou nada, ninguém nem lembrava que eu podia ter família. Dentro da escola, tudo que interessava era fofocar sobre a vida alheia e aprender trigonometria. O Diogo era um idiota, mas ninguém sabia que o irmão dele havia se suicidado havia apenas um ano. A Carol traiu o namorado, mas ninguém se importava se ele usava cocaína e a tratava mal. O Fred estava usando maconha, mas ninguém nem lembrava que o Júlio bebia tanto que no último feriado entrou em coma alcoólico e acabou no hospital.
Naquele ambiente tão cheio de problemas, e ao mesmo tempo tão distante deles, eu me esqueci da realidade para me concentrar nos pequenos problemas artificiais, que, no fundo, no fundo, importam tanto quanto o grafite da minha lapiseira ser B ou 2B.
No quarto horário, pouco depois do recreio, o meu celular tocou. O professor me olhou com bastante raiva enquanto eu apertava o botão vermelho de desligar e entrava no menu para colocar no silencioso. Eu estava nervosa e envergonhada. E então, para piorar tudo, o celular tocou de novo. Era a minha mãe, mais uma vez. Eu desliguei de novo, e o professor me xingou e reclamou de celulares ligados e tomou meu celular. Chato como sempre. Eu não tive escolha. Ele desligou o celular, jogou-o na mesa e continuou a aula, enquanto eu ficava lá, morrendo de vergonha e preocupação. A turma toda havia rido com o toque, e muitos ainda não haviam tirado os olhos de mim.
Passam-se alguns minutos e alguém bate na porta.
- Eu poderia falar com a aluna Daniela Freitas?
Eu me levantei, confusa, e lá fora, a moça me disse:
- A sua mãe ligou para o colégio. Parece que seu pai sofreu um acidente de carro e está no hospital. Ela vem te buscar daqui a pouco e pediu para que já esperasse na entrada.
Eu me senti tão culpada. Meu pai não foi me ver porque sofreu um acidente. Como eu pude pensar que ele se esqueceu de mim? E por que eu não liguei para ele? Talvez eu pudesse fazer alguma coisa. Que tipo de filha eu era, me envergonhando de ter ido a lanchonete onde ele disse para eu espera-lo, pensando que era melhor nem ir, já que ele não iria de qualquer jeito. Eu deveria saber que, por mais que ele tenha cometido seus erros, ele ainda é meu pai e se importa comigo, e que as pessoas mudam. Para melhor.
Minha mãe me buscou, mas não falou nada. Só quando eu perguntei:
- O que aconteceu exatamente?
- Sua tia me ligou dizendo que seu pai estava no hospital.
- Sim, mas por quê? Disseram que ele sofreu um acidente de carro.
Ela me lançou um olhar assustador nessa hora, e eu não entendi.
- Você não está com pena dele, está?
- Ele está bem?
- Está sim.
- Mas mãe...?
- A sua tia, dramática daquele jeito, me assustou, se não fosse isso eu nem teria te buscado. Mas eu acabo de ligar pro hospital, e ele está bem. Muito bem, aliás. Mas é bom você vê-lo, não? Foi aniversário dele esses dias pra trás...
- Ele passou a noite no hospital, mãe? Ele está mesmo bem?
Ela me lançou de novo o mesmo olhar.
- Ele passou a noite na farra, bebeu, e sofreu um acidente quando voltava para casa hoje de manhã. Ele está bem. Mas não por muito tempo...
E eu soube naquele momento que não era de culpa, vergonha ou auto-piedade que eu precisava. Mesmo aquele grande problema não era nada além de uma desculpa esfarrapada para me sentir mal. E lá ia eu, ver meu pai, e esquecer de tudo que se passou, sorrir-lhe um sorriso sem significado e deixa-lo sentir a culpa de se esquecer de sua única filha...