Três horas da tarde. O Sol, ainda forte, bate na janela e entra, atravessando o vidro, batendo no chão, esquentando o quarto. Na cama, está ela. Deitada sobre as cobertas, de camiseta larga e branca, de short curto e fresco, a cabeça coberta pelo travesseiro, as pernas esticadas, um dos braços ao lado do corpo, o outro sobre o travesseiro, a mão pesando sobre o lado do rosto.
Quente. O calor toca cada parte do corpo dela, e ela teme a sensação desagradável de suar. Lá fora, debaixo do sol forte, sem camisa, alguém devia estar correndo, o corpo todo molhado e mal cheiroso, ao mesmo tempo que brilhante e fresco. E essa pessoa provavelmente chutaria uma bola, sujando de poeira o tênis surrado, e em seguida gritaria, bem alto, “goooool!!!!!!!!!”, enquanto um goleiro mal humorado resmungaria algum palavrão consigo mesmo.
Mas dentro do quarto não chega o grito, não chega o palavrão, não chega nada além do piar insistente dos passarinhos perto da janela, e do barulho incessante dos carros passando na rua
Um, dois, inspira. Três, quatro, expira. E lá fora, alguém com o peito e as costas nuas respira de boca aberta, ofegante, enquanto rouba a bola de mais um adversário. Dribla um, dribla dois, passa para o companheiro de time, e ela respira fundo, alheia a tudo isso, tentando esfriar a cabeça, tentando pensar no que fazer.
Mais um gol, e mais outro, e talvez até mais um. Mais nenhum daquele jogador, e nem sempre de seus companheiros de time. Ela aperta os olhos com força. Vira a cabeça, contorce o corpo. Sente sede. E alguém em outro lugar, também sente. Escorrega, machuca-se um pouco, e no meio da nuvem de poeira que se ergue a seu redor, percebe, pela primeira vez desde que o jogo começou, que o dia está quente.
Sentam-se. O sol já bate nas pernas dela. Baixou mais.
Quatro horas.
Ela põe os pés no chão, levanta-se e senta-se de novo. Tontura.
Ele segura uma mão que lhe estendem e levanta-se. Cai de novo. O pé dói.
Ela levanta-se de novo. Põe a mão na parede, segue em direção a porta, tontura, visão escurece, joga o corpo contra a parede, a visão clareia, continua andando.
Ele levanta-se de novo. Apóia a mão no ombro do colega, levanta o pé, vai mancando e pulando num pé só em direção a grama e aos amigos que assistem ao jogo, o passo falha, ele cai e se levanta, continua andando.
A mão fecha-se na maçaneta. A porta é aberta, o barulho de passos desritmados segue até ela alcançar a cozinha, a visão cada vez mais clara, as pernas mais firmes. Enche o copo de água gelada, engole e se sente bem, enquanto um rapaz com o pé machucado, sentado na grama, engole água morna de uma garrafa, sentindo tanto ou mais prazer.
E nesse instante, seja lá por qual motivo, um pensa no outro. E ele engole a água com mal humor, sentindo-a amarga, e encara o pé machucado como se ele fosse o culpado de tudo. “Sabe, se eu não tivesse escorregado, eu poderia continuar jogando, com a cabeça vazia, livre”. E é esquecendo novamente dele, e do dia anterior, e de toda a frustração, mágoa, arrependimento, que ela vai para a sala ler.
O sol desce mais, e muitos relógios marcam quatro e quinze.