10 novembro 2009

Ele estava sentado num amplificador afinando a guitarra. Aquela, a guitarra vermelha de que ele gosta tanto. Ela tinha comprado uma excelente para ele, uma Gibson Les Paul maravilhosa. Havia custado caro e ela esperava que ele gostasse muito, mas ele sorriu de um jeito sem graça quando viu, como se tentasse não parecer mal agradecido, mas não estivesse interessado. Ela nunca o vira tocando a Les Paul. Mas a antiga, barata, arranhada, de uma marca ruim, essa estava sempre nas mãos dele. Suas mãos acariciavam as cordas de um jeito que fazia ela sentir ciúmes.

Ela estava escondida num canto atrás do palco e olhava ele ali em cima, se preparando para o último ensaio. Faziam dois meses que eles tinham terminado. Ele tinha ficado com outras mulheres e ela, com outros homens. Ela não sentia ciúmes dessas aventuras. Também achava que ele não sentia. Mas não havia nenhum momento em que ela o visse tocando e não sentisse a garganta arder com este sentimento amargo.

Ela queria competir pelo afeto dele com outras mulheres, queria poder disputá-lo, queria vê-lo amar alguém, mesmo que não fosse ela. Se ele amasse outra, seria a prova de que ele era capaz de amar, e isso bastaria. Ela ficaria decepcionada de não ser a escolhida, mas o sofrimento não seria tanto. O que a machucava era a plena consciência de que sua rival não era humana, nem mesmo viva, e portanto não lhe era possível competir.

Os outros membros da banda estavam prontos. Eles riam e conversavam enquanto ele ajeitava a corda sol novamente. Ele levantou-se, disse que estava pronto, o baterista contou até três e eles começaram a tocar. Ela escondeu-se melhor atrás do palco, fechou os olhos e ouviu atenta. O som realmente era bom e nada parecido com a da Les Paul. Havia alguma coisa de único naquela guitarra. Nem todo o dinheiro do mundo compraria uma melhor para ele. Nem todo o amor do mundo poderia substituir aquilo.

Ela mordeu os lábios nervosa. Quando eles haviam começado a se ver, ele tinha dado um fora em uma menina que era louca com ele, mas que queria mudá-lo completamente, transformá-lo em outra pessoa. Ele costumava ser bem discreto, mas contara essa história uma noite, após algumas garrafas de cerveja. Era isso que havia a fascinado nele, a recusa a se perder, a clara noção de identidade que ele tinha. E agora, como uma súbita revelação, ela se dava conta de que não o havia amado como sempre dissera, mas que apenas tivera a fixação por fazê-lo desistir disso. Encarara o relacionamento deles como um jogo, um desafio no qual ela poderia vencer sobre a personalidade dele. E não percebera que o som único daquela guitarra, o carinho que ele tinha por ela e por tudo que se relacionava à música, era parte dessa personalidade. Ele não era o tipo de pessoa que venderia sua alma por nada desse mundo, nem amor nem dinheiro, nem sexo nem drogas, nem nada.

Ela saiu dali, ansiosa para estar longe quando eles saíssem e com a forte necessidade de encontrar algo que a distraísse da vergonha que agora sentia.

Ela não sabia que ele já a havia visto. Ela não sabia que ele sabia que ela via os ensaios sempre. Ela não sabia que o coração dele batia mais rápido nessas situações, que a saudade apertava. Ela não sabia que, a cada noite, trancado em seu quarto, ele tocava a Les Paul. E ela não sabia o quanto ela o havia destruído.