28 março 2007

Estudantes ocupam o Plenário da Câmara Municipal de BH pedindo pelo Meio-Passe

Hoje, 28 de março, foi feita uma manifestação pelo direito dos estudantes ao meio-passe nos ônibus de BH, que é a única capital do Brasil onde os estudantes não tem nenhum tipo de benefício em suas passagens (por isso, um dos refrões cantados pelos manifestantes é “Meio passe já! Só falta BH! Mas que vergonha!”).

Ao mesmo tempo em que havia uma passeata do lado de fora, partindo da Praça Sete, foi feita uma invasão a Câmara Municipal. Nós, estudantes, chegamos em ônibus alugados por nossas respectivas escolas e entramos no prédio, encontrando certa resistência por parte dos seguranças, que tentaram fechar as portas. Alguns dos estudantes foram agredidos, mas conseguiram abrir as portas e segurá-las abertas até que houvesse muitos manifestantes do lado de dentro. Então seguimos para o plenário, cantando os refrões típicos destas manifestações.

O local estava lotado de estudantes e, embora fôssemos pacíficos, os seguranças tentavam inutilmente nos controlar ou nos expulsar. Havíamos feito uma “faixa” (com pedaços de papel colados com durex) e colocado cabos de vassoura dos lados para segurar, e um segurança os arrancou. Algum tempo depois, a polícia militar apareceu e ficaram alguns na porta. Ficamos sabendo que a passeata havia chegado do lado de fora com aproximadamente mil estudantes. Tínhamos planos de só sair quando o meio-passe fosse aprovado, fosse preciso o tempo que fosse.

Ficamos ali, cantando, ouvindo os discursos de nossos companheiros, e fazendo e colando cartazes, enquanto a fome, a sede e a vontade de ir ao banheiro aumentavam. Mas não podíamos sair, porque, se o fizéssemos, a polícia nos impediria de voltar. Por fim, um vereador nos disse que nós podíamos ir ao banheiro. Algumas pessoas foram, mas não conseguiram voltar. Uma dessas, Amanda, que havia deixado a mochila dentro do plenário, disse que ao voltar, o tenente Guilherme lhe disse que não poderia entrar novamente, ao que ela respondeu que precisava pegar suas coisas. Como resposta, ouviu que se não saísse por bem, seria por mal, e que os policiais tinham quatro cachorros que podiam soltar contra ela. Enquanto ela protestava inutilmente, um vereador saiu da câmara, conversou com ela e levou-a para um lugar seguro, onde ela pode ficar escondida até conseguir voltar à manifestação, mais tarde. A amiga que estava com ela não pode voltar, e teve que ficar do lado de fora, junto dos estudantes que participaram da passeata.

Após algumas horas, conseguimos, enfim, direito a ir ao banheiro e a beber água, mas continuávamos passando fome, pois o acesso à cantina nos havia sido negado, e todos que tentavam entrar no prédio com comida eram barrados.

Às 10h30, uma comissão de estudantes se reuniu com o líder da câmara e com os vereadores que apoiaram a nossa iniciativa. Discutiram um prazo para a votação do projeto e combinaram uma segunda reunião, às 17h, com a representante da prefeitura, para discutir a possibilidade de se fazer um decreto. Como havia 54 projetos vetados cujo veto deveria ser votado novamente, antes do projeto do meio-passe, foi decidido que a Câmara trataria destes o mais rápido possível, e votaria o nosso projeto no dia 16 de Abril.

Por volta de 11h30, boa parte dos estudantes do Coltec, escola com mais alunos ali, saíram, pois esta era a hora marcada para a volta do ônibus alugado. Algum tempo depois, saíram quantidades significativas de alunos de outras escolas, mas, mesmo que muitos tivessem ido embora, ainda havia muitos estudantes, o que apenas demonstrava que a quantidade de invasores havia sido realmente grande.

Os manifestantes que ficariam durante a tarde, assinaram uma lista, de modo que se soubesse a quantidade de alimentos necessários. Porém, ainda demoramos muito tempo até conseguirmos comida para todos. Alguns estudantes conseguiram uma marmita, e uma menina apareceu com uma sacola cheia de bananas, que distribuiu por aí, mas ainda não tínhamos acesso a cantina, nem o direito de entrar com alimentos. Ficamos lá, famintos, sentindo o cheiro forte do café dos funcionários.

Por volta de 14h15, subimos para a galeria, em cima do plenário, de onde poderíamos assistir a esse. Pouco tempo depois, finalmente, conseguiram trazer comida, e todos comemos pão com salame (embora alguns tenham optado só pelo pão). No entanto, os seguranças vieram nos dizer que não podíamos cortar o pão, porque estávamos usando faca, e não podemos usar faca ali.

Quinze minutos depois, era o horário marcado para o início do plenário, que não pode começar a menos que se tenha um mínimo de 22 vereadores. Mais quinze minutos depois, havia apenas sete.

Ficamos cantando e gritando até que o plenário começasse. Alguns seguranças entraram mais uma vez, e disseram que os instrumentos que nós tínhamos (um violão e alguns tambores), deveriam ser guardados, porque uma vez um louco jogou um instrumento musical lá embaixo.

Instrumentos infelizmente guardados, nós continuamos cantando, observados pelos olhos curiosos dos vereadores, que, em algumas músicas, chegaram a dançar, e em outras, a rir (“Meio passe não é esmola! O filho do prefeito vai de carro para escola!”).

Até às 15h, quando foi a abertura do plenário, havia chegado 29 vereadores e a plenária começou, sendo que logo havia um total de 34. O primeiro projeto apresentado foi sobre estacionamentos de Shoppings Centres. (Se compradores e vendedores deveriam pagar... Foi vetado.)

Ficamos assistindo eles votarem em diversos projetos, alguns úteis, a maioria irrelevante, enquanto tomavam seus cafés. (Algum tempo depois, nossas bocas secas receberam refrigerantes Del Rey, por parte do movimento.) Em certo momento, eles chamam os vereadores que nos apóiam para falar sobre o meio passe. Eles nos parabenizam, apontam o quanto fomos pacíficos e respeitosos, e falam sobre o projeto. Depois, mais dois vereadores vêm falar, e ambos nos cumprimentam pela manifestação e pelo respeito, mas falam que nossos esforços são inúteis, pois questões de tarifa são com o poder executivo. Anos antes, eles votaram a favor do mesmo projeto e este foi vetado pelo prefeito de então. Não adianta nada aprovar lei de meio-passe na Câmara se o prefeito vai vetá-la logo em seguida.

Enfim, continuei lá até as 16h30, quando ainda faltavam 30 itens antes do projeto do meio-passe. Quando saí, ainda havia mais de 50 estudantes, mas não estava realmente cheio, como os policiais militares, armados de porretes, disseram para os estudantes do lado de fora que desejavam entrar.