11 março 2009

Hoje, faz um ano que eu moro aqui. A cidade lá embaixo segue como sempre. Daqui de cima, parecem pequenas formiguinhas e, de fato, se movem como tais. Organizadamente caminhando pelas calçadas, pequenos pontinhos coloridos mais ou menos do mesmo tamanho vestindo roupas mais ou menos iguais e feitas mais ou menos do mesmo material.

Viro mais um copo do velho uísque enquanto contemplo a rua abaixo. O líquido queima minha garganta e, por um instante, disfarça essa coisa estranha que sinto nela. Algo que não me lembro mais o que significa, mas que certa vez senti. Quando mesmo?

O meu apartamento fica na cobertura. É bem grande e espaçoso, bastante confortável. É meu então não tenho que pagar aluguel, mas já há algum tempo que não pago nem o condomínio nem os impostos. Algumas semanas atrás, alguém começou a vir e tocar na campainha. Eu não atendi. Deve ter pensado que eu tinha saído, pois foi embora e voltou no outro dia. Repete a cena. Repete. Repete e repete. E mais uma vez. Até que um dia vem quando estou ouvindo um dos meus discos, e se dá conta de que eu estive aqui dentro o tempo todo. Nunca vi alguém bater na porta com tanta força. E os gritos! Embora eu não tenha entendido nada. Provavelmente eram sobre os impostos. No que mais as formigas pensam?

O barulho da cidade parece irregular. Alguns o pensariam caótico. Mas eu vou além dos pequenos pensamentos da vida diária. Eu encontro os padrões. Eu vejo a figura de longe. Enxergo a caverna de fora, enquanto as formigas encaram as sombras na parede. Aliás, nem isso. Formigas caminham na sombra da mesa, sem levantar suas cabecinhas desproporcionais para olhá-la. Eu, já, estou de pé, grande e imponente, diante da mesa, minha mão sobre ela, o copo de uísque ao lado. É por isso que eu sei que as buzinas, os gritos, os passos, o som dos motores, o ruído incessante do vento empurrado pelos corredores de prédios... Tudo isso segue um padrão. Eu vejo esse padrão. Eu sei que a cidade é regular como uma calculadora. Não importa quantas vezes você aperte o um, o mais, o um e o igual, o visor sempre mostrará dois.

A sensação estranha na garganta de novo. Outro gole de uísque e ela se vai, como uma bruxa queimada numa fogueira alcoólatra.

Largo o copo sobre a mesa e meus pés me conduzem pela sala. É tudo tão regular que posso dançar ao ritmo humano. Meus pés descalços deslizam pela madeira, meus braços se abrem, minha cabeça se ergue e meus olhos encaram o teto manchado das minhas experiências. Eu giro, eu giro, e meu equilíbrio é lançado pelos ares. Caio no chão e sinto com prazer a dor na minha bunda. Sou tão decadente. E caótico. A cidade é regular, com seus elevadores, seus semáforos, suas calçadas, suas roupas, seus horários. As coisas seguem padrões pré-estabelecidos, fixos. Não há pessoas decadentes e caóticas dançando descalças pelo asfalto com eu danço no chão da minha casa. E se houver, tudo conspirará para colocá-la, limpa e arrumada, em seu lugar correto, na hora certa, em sua atividade maçante e regular.

Mas o que é isso na minha garganta? Talvez eu devesse ir ao médico descobrir se estou doente. Embora eu não queira sair da minha cobertura... Posso chamá-lo, e ele poderá vir e me dizer “diga ah” e eu abrirei minha boca enorme e ele verá meu esôfago e meus intestinos e dirá “você está doente” e me dará uma receita com um nome estranho de remédio que eu não comprarei porque não vou sair do meu apartamento para ir a uma farmácia comprar alguma droga que uma formiga diplomada receitou.

Eu queria sair onde estão as pessoas de verdade.

Quando era jovem, certa vez eu fui acampar e encontrei um velho que morava numa cabana no meio da montanha. Ele tinha uma pequena roça e alguns animais que criava, e nunca ia a cidade. Vestia roupas antigas, surradas e sujas, e era rude como uma besta. Seus olhos eram negros como o céu em uma noite nublada de lua nova, mas todo o ódio que havia neles os fazia parecerem brasas vermelhas e quentes. Nós éramos cinco jovens recém-saídos da faculdade, brancos e de classe média, frágeis e delicadas formigas operárias, no auge da obediência às regras do formigueiro. E ele olhou para uma amiga minha, uma especialmente bonita, e naquele rosto antigo, marcado e feroz, podia-se ver o desejo que uma fera sente ao ver algo que pode destruir. Ela saiu de lá cheia de nojo, e muitos comentários sobre como ele era machista e vulgar foram feitos, inclusive por mim.

Quatro anos atrás, eu voltei lá com a família que eu havia criado para mim. Depois de passeios por cachoeiras e caminhadas pelas montanhas, eu encontrei a casinha. Estava mais suja do que nunca e muito empoeirada. Depois de chamar algumas vezes, eu criei coragem e entrei. Encontrei uma caveira no chão da sala, com alguns ossos espalhados. Senti quase um início de piedade quando pensei que ele havia morrido sozinho. Mas eu ainda não entendia. Ainda que estivesse mais velho, eu ainda era a mesma formiga de antes.

Minhas mãos tremem levemente enquanto acendo meu cigarro. É o meu último. Eu guardei tantos maços e economizei tanto e agora está no fim. Quando trago, a fumaça esconde a sensação estranha na garganta. Eu sei como o velho se sente. Ele não era feroz, vulgar, machista ou solitário. Nós havíamos invadido seu espaço e ele se defendeu como pôde. Era simples demais para fazer de outra maneira. E agora, quando me lembro de seus ossos, não sinto mais a velha piedade. É mais como uma inveja, uma profunda inveja. Deviam ter se passado meses, talvez até anos, desde que ele morrera até eu encontrá-lo. Se eu morrer aqui, o cheiro incomodará os vizinhos e eles chamarão a polícia. Em uma semana, antes que meus ossos estejam limpos, estarei debaixo da terra, em algum cemitério qualquer.

Mais uma prova da regularidade das formigas: ouço passos do outro lado da porta. Meu colega desconhecido veio novamente bater na porta. A sensação estranha na garganta se torna mais forte do que nunca e eu bebo no bico da garrafa suas últimas gotas. Ele grita alguma coisa. Nem sei mais o que significam suas palavras ou se é voz de homem ou mulher. Estou bêbado demais ou será que passei tempo demais aqui dentro?

Caminho até a janela e a abro. Lá embaixo, tudo segue regular. Muitas pessoas trabalham, mais algumas andam na rua, algumas transam, outras morrem. Animais! Bando de animais, e, no entanto, abandonaram suas vidas e almas para se tornarem máquinas! Pegaram o pior de cada, se tornaram aberrações horríveis! Onde, afinal, onde estão as pessoas de verdade?

Um estrondo atrás de mim. Quando olho, a porta está arrebentada e algumas formigas me olham. Se ainda entendo dessas coisas, talvez aquelas ali sejam da polícia. Talvez não, quem disse que entendo qualquer coisa?

Gritam alguma coisa. Uma delas parece dizer meu nome. Dou uma leve tossida e eles se calam.

“Ano passado, meu filho morreu durante uma viagem pela floresta, na Bolívia. Enquanto ele estava desaparecido, eu encontrei uma carta que ele havia me deixado, dizendo que tinha a intenção de morrer lá. Ele dava todos seus motivos e explicava ao fim que queria que eu seguisse em frente e que deixasse seu cadáver em paz. ‘Os mortos merecem seu descanso! Deixe meus ossos onde eu escolhi descansá-los!’ ele dizia. Quando encontraram o cadáver à beira de um rio, eu pedi que não o tocassem. Mas seguir em frente, isso eu não posso fazer. Meu filho devia morrer depois de mim. Devia ser eterno para mim. Não posso voltar a minha vida alienada depois que minha venda me foi arrancada.”


A dor na garganta atrapalha a falar, mas tudo saiu claro, acho. Algo molhado e quente desliza pela minha bochecha enquanto me lembro do que é chorar.

Sento-me na janela e deixo o corpo cair para fora. Posso ver as formiguinhas pulando em minha direção, as mãos estendidas, gritando. Posso sentir o vento contra meu corpo. Lá embaixo há mais formiguinhas. Talvez com um corpo na rua, elas tenham que descobrir outro caminho.