29 setembro 2008

Era um túnel escuro, úmido e sujo. Eva hesitava em sua entrada. Ali fora, outras pessoas brincavam e corriam ao sol. A grama era verde e macia. Um riacho de águas puras e cheias de peixes cortava o vale. As pessoas corriam e riam e, por vezes, tropeçavam e choravam.
Eva corria há anos pelo vale. Não conhecia cada parte dali, cada pessoa, cada besouro, cada peixe, cada arbusto. Mas conhecia o suficiente para se entediar e querer ir além. Seus companheiros não se sentiam assim. Depois de um tempo, as coisas ficavam chatas, mas enfrentar as montanhas e sair do vale seria estúpido. Afinal, todos sabiam o que havia lá e não era algo que se pudesse enfrentar. O fato de que cada um acreditasse que existia algo diferente não impedia que o medo e desinteresse fosse geral. Quer houvessem leões ou um abismo, fosse um inferno gelado ou um lago sem fim, não era nada para os habitantes do vale.
Algumas pessoas ousaram sair. Algumas voltaram, outras não. Mas cada uma que voltava, contava uma história diferente e incompatível.
Ninguém, no entanto, entrava no túnel. Eva não sabia porquê, mas ninguém queria ir lá.
“Para quê? Só deve haver terra e sujeira lá!”
Mas, agora, ela estava prestes a entrar. Não porque quisesse, mas porque, sem querer, deixara seu casaco cair lá. Não poderia enfrentar as montanhas geladas sem ele.
“Esqueça isso! Você não deveria viajar mesmo!”
Era isso. Ela respirou fundo e entrou.
Seus pés afundavam na imundice e seus olhos custavam a se acostumar à falta de luz. Ela tropeçou e se apoiou na parede. Sentiu lama e sujeira úmidas grudarem em seus dedos. Ouviu um rosnado à frente.
Forçando a vista, viu um urso deitado, segurando seu casaco debaixo da pata. O túnel continuava atrás dele e havia alguma luz fraca, assim como algo brilhante nas paredes e o ruído distante de água. Ao mesmo tempo em que sua curiosidade aumentava, o animal ergueu-se rosnando ameaçadoramente.
Ela saiu correndo e tropeçando e chegou de volta a entrada. Sentou-se em um tufo de grama sob o sol forte e ficou ali, tremendo e soluçando, por um longo tempo. Seu plano de sair do vale foi adiado por anos e ela nunca esqueceu do vislumbre de luz no fim do túnel.

Um comentário:

Anônimo disse...

ficou até um clima de mistério, algo um bocado mágico...

GOSTEI!
XD