Era uma tarde cinzenta de segunda-feira. As nuvens tingiam o céu de diversos tons de cinza, desde o prata até o grafite. As pinturas dos prédios tomavam tons acinzentados, que combinavam bem com o cinza claro do cimento da calçada e o cinza escuro do asfalto das ruas. Entre várias pessoas (cinzentas), andava uma menina (com um humor tediosamente cinza).
Tinha o olhar distante, e pode-se perguntar se via por onde ia. Mastigava de boca aberta um chicletes (surpreendentemente rosa), andava com passos firmes, segurava a chave de casa em uma das mãos, e, enquanto andava, a manga de seu casaco roçando no resto dele fazia zip-zip.
Embora o som da cidade, com seus carros e suas pessoas, seus ocasionais pássaros e suas numerosas máquinas, chegasse a seus ouvidos, em sua mente os únicos sons eram as vozes - todas similares - que discutiam os mais diversos assuntos que lhe diziam respeito. No momento em que atravessou a rua da Bahia, por exemplo, estavam empenhadas em descobrir se a professora de Biologia lembraria do trabalho que pedira para o dia seguinte, ou se seria possível enrolá-la e assim ganhar mais uma semana. Quando parou na calçada da Bias Fortes, esperando o sinal fechar para os carros e abrir para os pedestres, o assunto já era um carro verde fosforescente que acabara de passar - como alguém teria coragem de sair em uma coisa daquelas? As vozes - que se assemelhavam em timbre, tom e altura, embora variassem em entonação - discorriam sobre as ruas, a escola, as pessoas, as coisas, o céu, e tudo que havia para discorrer. Incessantemente.
Quando o cinza dos céus decidiu por fim cair à terra, na forma de uma chuva acinzentadamente gelada, ela deixou de andar em linhas retas para procurar refúgios, lugares secos. Quando as gotas se tornaram numerosas o suficiente para acabar com estes abrigos, os passos dela se tornaram mais rápidos, até que a caminhada se tornou uma corrida. Subir um morro, correndo, debaixo de chuva, mostrou-se uma tarefa mais árdua do que ela esperava. Por fim, teve que se contentar com diminuir o passo e aceitar que o corpo ficasse encharcado. Suas vozes interiores se juntaram em coro e lembravam umas às outras todos os palavrões que conheciam.
E então, ofegante, encharcada, tremendo, xingando, e mais cinza do que nunca, ela chegou ao topo do morro e lá, na esquina com a Aimorés, esperavam duas meninas e um menino.
"Até que enfim!"
"Por que demorou?"
"Nós já compramos os ingressos, o filme começa daqui a pouco."
"Vamos voltar pro cinema, então?"
E ela foi, encharcar as poltronas cinzentas, irritando os funcionários de humor cinza, assistir um filme cheio de cores.
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Um comentário:
ótimo!
que isso!
muito bom!
ao mesmo tempo que é engraçado e divertido é difícil de se preceber diversão e isso é o que mais me atrai: SUBJETIVIDADE!;)
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